Frota de motos em Blumenau é maior que a frota total de municípios vizinhos

Postado em: 16 de Dezembro, 2016.|Por: Márcia Pontes

Você sabia que a quantidade de veículos de duas rodas (motocicletas e motonetas) emplacados e que circulam por Blumenau até novembro de 2016 é maior do que a frota total (todos os tipos de veículos) de Gaspar, Indaial, Timbó e Pomerode? É como se os 45.572 veículos de duas rodas da frota blumenauense (18,39% da frota total de 248.835 veículos) circulassem todos ao mesmo tempo nessas cidades e ainda assim não caberiam todos. A frota de veículos de todos os tipos em Gaspar é de 42.411, a de Indaial é de 44.828, a de Timbó é de 30.172 e a de Pomerode é de 24.841 veículos. Os dados são do Detran/SC. Diante das constatações de que bem mais da metade das mortes no trânsito de Blumenau são de motociclistas, que acidentes envolvendo motociclistas correspondem a mais da metade dos chamados de resgate, de entradas em emergências de hospitais, em ocupação de leitos regulares e de UTI, além do pagamento de indenizações por despesas médicas, mortes e invalidez do seguro DPVAT, o grande questionamento é: como frear a violência no trânsito envolvendo os condutores em duas rodas?

Pode parecer pouco que as motos e motonetas representem um percentual de magros 18,39% de toda a frota de 248.835 veículos na cidade, mas se considerarmos que dentre estes veículos estão também os que não circulam com a mesma frequência em via pública, será muito! Estamos falando aqui de uma frota total que inclui automóveis, caminhão, caminhão trator, caminhonete, camioneta, chassi/plataforma, ciclomotor, microônibus, motor-casa, ônibus, quadriciclo, reboque, semi-reboque, side-car, trator de rodas, trator esteiras, trator misto, triciclo e utilitários. Se considerarmos só os automóveis com uma frota de 159.960, as motos representarão 28,6%.

Estão aptos e habilitados para dirigir as motos e motonetas em Blumenau, 110.668 condutores (81.145 homens e 29.523 mulheres), sejam eles somente com habilitação categoria A ou combinadas com as categorias AB, AC, AD e AE, o que significa que há muito mais condutor habilitado do que motos circulando na cidade. Mas, ainda assim, o estrago tem sido grande e diário: os mais jovens, em idade econômica produtiva estão nos deixando cada vez mais cedo.

Como coordenadora estadual do Movimento Internacional Maio Amarelo nada me escapa, inclusive a observação das circunstâncias de tais acidentes envolvendo motociclistas. O saldo são ocorrências, infrações, feridos, mortes e sequelas que poderiam ser evitados com cautela, mais autocuidados e condutas preventivas no trânsito por parte de todos: motoristas e motociclistas. Mas, também pela falta de políticas públicas sérias e sustentáveis para a segurança no trânsito. Com a mesma seriedade e dedicação com que se planeja a Oktoberfest.

Claro, que não se pode esquecer as condições das vias e a ausência de investimentos em prevenção desses acidentes. O que se sabe pelo IPEA é que de 2003 a 2011 Blumenau gastou R$ 1,7 bilhão em atendimentos a acidentes na cidade, mas o que se investiu em prevenção ainda é um mistério, assim como a destinação detalhada da aplicação do dinheiro com arrecadação de multas na cidade.

Frota que não pára de crescer

Entendam-se por veículos de duas rodas as motocicletas e motonetas. Motocicleta é o veículo que se dirige na posição montada e motoneta os veículos de que se dirige na posição sentada, como as Biz e similares. Em 10 anos a frota só de motocicletas que em 2002 era de 14.161 veículos, mais do que dobrou em 2012, quando chegou a 35.213 unidades. Um percentual de 148,6% na década. Segundo dados do Detran/SC, até novembro deste ano a cidade contabilizava 36.690 motocicletas.

Com as motonetas, Biz e similares que se dirige na posição sentada, a evolução da frota segue o mesmo caminho e vem aumentando a cada ano. Os impactos vão sendo sentidos no trânsito. A frota de motonetas em Blumenau que em 2002 era de 1.240 saltou para 7.586 no ano de 2012. Um salto percentual de 511,7% na década. Até novembro de 2016 a frota de motonetas em Blumenau era de 9.082 unidades emplacadas e em circulação.

Necessidade de ações contextualizadas e sistêmicas

Uma das grandes preocupações na cidade em todos os níveis é: como frear a quantidade de acidentes, feridos, pacientes hospitalares, sequelados e mortos em acidentes de trânsito, sobretudo, aqueles que envolvem os condutores de veículos de duas rodas. No entanto, ainda patinamos com toda a nossa boa vontade por falta de um programa de humanização do trânsito que trate o problema de uma forma sistêmica, contextualizada, com estudo de pontos críticos de acidentes, perfil dos acidentados, custos e consequências. Tudo isso em nível de política pública séria e sustentável voltada para o trânsito, abraçada por todas as pastas e secretarias, juntamente com organizações, instituições, população e sociedade organizada.

De pires na mão e com muito mais boa vontade do que recursos e investimentos em prevenção de acidentes, os profissionais, instituições e voluntários quebram a cabeça pensando em que tipos de ações educativas e preventivas podem ser feitas para tentar evitar. Ser voluntário é bom, doar-se em torno de uma causa como a preservação da vida no trânsito é melhor ainda, mas, enquanto a segurança no trânsito não for abraçada e assumida enquanto um compromisso dos gestores nessa parceria, a tendência é que sejam ações paliativas e de pouco efeito. Afinal, estamos falando em atingir, envolver e ter como parceiros os 110.668 condutores dos 45.572 veículos duas rodas emplacados e em circulação na cidade. É muita gente e se não houver um compromisso de todos vai ficar mais difícil ainda.

A melhor campanha educativa que existe é a prevenção, os autocuidados e acima de tudo, o envolvimento da população que, assim como é a protagonista dos acidentes de trânsito, também pode ser a protagonista e melhor parceira das ações preventivas. Mas, para isso, o problema precisa ser tratado na sua complexidade, levando em conta as diversas variáveis e fatores predisponentes.

Órgãos de trânsito, instituições e voluntários não vão resolver o problema sozinhos. Há que se expandir um programa de educação para o trânsito com base na informação, orientação e na busca de uma linguagem emocional que envolva e traga como melhores parceiros o poder público como um todo (não só alguns de seus representantes) e a população. Sem eles não há políticas públicas, não há envolvimento sério e compromisso coletivo.

A cidade precisa respirar segurança no trânsito, se envolver com a segurança no trânsito ao ponto de as pessoas saírem de casa de manhã cedo e se fazerem a seguinte pergunta: “o que eu vou fazer hoje para evitar me machucar e machucar os outros?”. Isso significa que o maior dos investimentos é aquele no comportamento do condutor, que é o cérebro da máquina. Este sim, é quem se envolve e envolve os outros em acidentes.

Há problemas estruturais que precisam ser resolvidos, tais como: detalhar e divulgar à população os investimentos em segurança no trânsito, quanto se gasta e quanto se investe em prevenção; ter um plano de prevenção e de investigação de acidentes; equipes técnicas com formação e especialização em segurança no trânsito que coloque os profissionais certos no lugar certo; menos decisões políticas e mais decisões e articulações técnicas.

São necessários investimentos em prevenção; fazer bons projetos para pleitear e captar verbas existentes; implantar um programa de humanização do trânsito, parcerias mais fortes com a população, com ações contextualizadas, integradas e sistêmicas. É preciso tirar o conhecimento das leis de trânsito dos especialistas e fazê-lo chegar à população numa linguagem que ela entenda para que se torne significativo e possa orientar as suas condutas e práticas no trânsito. E também importante: já passou da hora de termos uma política pública séria e sustentável para o trânsito, norteada pela realidade, pelos estudos de pontos e comportamentos críticos de acidentes. Ações que envolvam toda a comunidade como parceiros.

Os acidentes de trajeto envolvendo motociclistas e outros tipos de condutores ainda continuam sem o devido tratamento. O Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), que atende trabalhadores vítimas de acidentes de trânsito e que poderia gerar dados confiáveis e mais próximos da realidade no que se refere aos acidentes de trajeto envolvendo motocicletas e outros veículos ainda sofre e é penalizado com a falta de interatividade com os demais envolvidos nos atendimentos. Nem sempre os dados envolvendo acidentes de trajeto são coletados pelos agentes no momento do acidente, nem todo trabalhador registra a Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) e nem todo médico faz a notificação no momento do atendimento, até em função da gravidade do acidente que precisa de encaminhamento cirúrgico imediato. E assim, vão se perdendo os geradores de dados e informações que balizam quaisquer estudos que orientam as intervenções.

O importante é que a sociedade compreenda que por trás de um acidente de trânsito existe não só um desrespeito às leis de trânsito e uma infração que deu errado, mas, também, um comportamento inadequado, a desinformação, o excesso de confiança, a imprudência, a negligência, a imperícia, a desídia de muitos gestores que não abraçam a segurança no trânsito como compromisso, a falta de investimento em ações preventivas e muitas outras variáveis. Tão complexo quanto as interações em via pública.

Enquanto isso, o que temos como certo é uma frota de motocicletas e motonetas que não pára de crescer, acidentes diários que mudam os destinos de muitas vidas para sempre e muitas pessoas com boa vontade para mudar as coisas. Mas, se não houver o compromisso multissetorial e a segurança no trânsito não for abraçada em nível de gestão, seremos apenas um gueto segregado lutando para salvar vidas na sociedade dos inválidos.

Sobre a Márcia Pontes

Especialista em Trânsito - Coordenadora Estadual do Maio Amarelo em Santa Catarina
"Condutas preventivas no trânsito estão para além da prática de dirigir segura. Elas estão enraizadas enquanto filosofia associada ao ato responsável de exercer todos os seus papéis no trânsito."
Márcia Pontes Condutas Preventivas no Trânsito. 9936-8404 / 3330-7740
Clique aqui e saiba mais sobre o meu trabalho: https://www.facebook.com/condutaspreventivasnotransito/"

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